Clair Obscur - Expedition 33 - Uma Jornada Melancólica pela Arte e pelo Luto
- Rafael Gomes Alves

- 13 de jan.
- 4 min de leitura
Introdução: O Peso de um Número
Imagine um mundo onde a morte tem data marcada, não por uma doença, mas por um número que paira no horizonte. A cada ano, a Artífice pinta um número no Monólito, e todos com aquela idade desaparecem. Amanhã, acontece o Gommage: o evento no qual a Artífice se levanta para remover o número antigo e pintar um número novo, reduzindo de 34 para 33. É neste mundo que existem as expedições, um grupo de pessoas, novamente no seu último ano de vida, que parte para o desconhecido a fim de tentar parar a Artífice de pintar um novo número.

Essa é a premissa de Clair Obscur: Expedition 33, um jogo desenvolvido pela Sandfall Interactive e que se consagrou como melhor jogo do ano de 2025 pelo The Game Awards.
A Estética da Belle Époque e o Gameplay Inovador
Na minha visão, o jogo possui dois pontos fundamentais e especiais em relação a outros títulos: a direção de arte e a gameplay inovadora para um RPG de turnos.
Do lado da direção de arte, o jogo utiliza não apenas a arte como cenário, mas como identidade e metáfora para o desenvolvimento da história. Crises são pintadas, personagens são apagados, histórias são demonstradas e relações são bordadas. A direção de arte faz parte integral do jogo, mostrando como a arte pode permear a vida das pessoas de diversas formas.
Já na parte da gameplay, o jogo atualiza a fórmula de RPGs de turno permitindo que os jogadores possam não apenas escolher ataques e combos, mas também desviar, aparar ataques comuns e especiais, pular e revidar. É esse "tempero" que torna a experiência dinâmica. Agora é vital identificar os inimigos e seus padrões, calculando o tempo certo (parry) para não sofrer dano e efetuar contra-ataques poderosos. Uma infelicidade desta adição é que o peso dos atributos (stats) acaba sendo levemente diminuído em favor da habilidade motora do jogador, aproximando-o de um jogo de ação.

A Experiência: Por que este jogo é um marco? (Sem Spoilers)
Aliar uma excelente direção de arte a uma gameplay divertida é a base de Clair Obscur: Expedition 33. Entretanto, é na história que o jogo brilha ainda mais. O senso de urgência criado por um enorme "33" pintado no horizonte faz com que cada conversa no acampamento entre Gustave, Maelle, Lune e Sciel pareça preciosa, pois o fim é inevitável.
"Quando um cair, os outros continuam" e "Para aqueles que virão" são os mantras que sustentam os expedicionários. O mundo se expande com personagens misteriosos e raças fascinantes como os Nevrons, Axons e Gestrals, que trazem uma camada de curiosidade antropológica ao game. O desfecho fantástico sobre as ações da Artífice faz desta obra uma peça que vale a pena ser saboreada até o último segundo.
Atenção com Spoilers: A seção abaixo discute revelações cruciais do final do jogo e a natureza do mundo de Lumière.
Mergulho Profundo: A "Tela" e a Tragédia da Família Dessendre
A grande virada narrativa ocorre quando descobrimos que o mundo de Lumière é, na verdade, "The Canvas" (A Tela). Essa revelação muda tudo: não estamos em um continente, mas dentro de uma obra de arte sustentada pelo luto.
A Artífice, Aline Dessendre, deixa de ser uma vilã unidimensional para se tornar uma mãe consumida pela dor. O mundo que ela criou é uma tentativa desesperada de manter sua família viva, ainda que de forma artificial. Cada membro da família Dessendre personifica uma faceta desse luto:
- Aline: a negação que cria uma realidade falsa;
- Renoir: a raiva e o desejo trágico de forçar o despertar;
- Verso: a aceitação que busca o descanso final;
- Alicia: o sofrimento físico e a culpa pelo incêndio que levou Verso;
- Clea: a distância e a frieza pragmática necessária após a perda.
Essa humanização transforma o confronto final em um embate de sentimentos e filosofias, e não apenas uma luta entre bem e mal.
O Dilema Final: Maelle ou Verso?
O clímax nos apresenta uma escolha impossível: de um lado, Maelle pretende reconstruir Lumière e proteger seus moradores, aceitando o fardo de ser a nova Artífice (mantendo a ilusão). Do outro, Verso deseja destruir o quadro, libertando as almas presas naquele ciclo eterno de pintura e sofrimento.

Escolhi me aliar a Verso. Compreendi que sua alma merecia o descanso após anos de servidão artística forçada. Além disso, manter o quadro significaria que, mesmo sob uma "boa" Artífice como Maelle, todos ainda estariam presos a um mundo artificial e limitado.
Essa decisão me fez refletir: somos realmente donos do nosso destino ou apenas seguimos as pinceladas de algo maior? O jogo questiona o que aconteceria se um ser superior fosse tão falho e humano quanto nós.
Conclusão: Um Convite à Reflexão
Clair Obscur: Expedition 33 é uma obra-prima que ressoa muito além dos créditos finais. É um convite para revisitarmos nossos conceitos de legado e sacrifício.
Se você estivesse na Expedição 33, o que escolheria: manter a ilusão de um mundo perfeito ou aceitar o fim da pintura para que uma alma possa, finalmente, descansar?

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