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Extensão, Tripla Hélice e o "Senso de Lugar": Reflexões de um Docente sobre o Futuro da FEI

  • Foto do escritor: Rafael Gomes Alves
    Rafael Gomes Alves
  • 2 de fev.
  • 4 min de leitura

Na última semana de Janeiro, o Centro Universitário FEI realiza a tradicional Semana da Qualidade, evento no qual a comunidade acadêmica se reúne para discutir assuntos importantes para a educação brasileira e para as atividades docentes. O tema deste semestre, "A Universidade como Agente de Transformação Econômica e Social", não poderia ser mais oportuno. Em um cenário de rápida evolução tecnológica e pressões climáticas, o papel do docente migra da mera transmissão de conteúdo para a curadoria e facilitação de ecossistemas complexos.


Além da Sala de Aula: O Ciclo 2026-2030


Participar da abertura da Semana da Qualidade deste ano teve um peso diferente. Estamos no centro da construção do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) para 2026-2030. O Reitor Vagner Bernal Barbeta deixou claro: este não é um documento estático entregue de cima para baixo, mas uma construção que se apoia nos relatos e eventos da comunidade acadêmica, como as semanas da qualidade, as palestras da indústria, o lançamento de livros, dentre tantos outros eventos que ocorreram na instituição nos últimos anos. 


Como docente, vejo aqui uma janela de oportunidade (e de responsabilidade): definir o DNA da FEI para a próxima meia década exige que saiamos da zona de conforto burocrática para pensar em sustentabilidade institucional em um mundo que acelera cada vez mais e já dá sinais de que está saindo do controle em diversos aspectos. Neste sentido, minha contribuição passará a depender da minha capacidade de compreender as rápidas transformações que vêm acontecendo, para que eu possa discernir com qualidade o que deve ser preservado e o que deve ser aprimorado.


A Crise do "Conhecimento Estático"


Um dos pontos mais profundos discutidos foi a transição da universidade de um "repositório" para um "gerador" de saber. Sob a ótica estatística trazida pelo Prof. Marcos Nogueira, os dados são implacáveis: o abismo entre a formação de bacharéis e doutores no Brasil, somado à desigualdade regional, coloca sobre nós, docentes, uma pressão por produtividade que vá além dos artigos que devem ser escritos.


Precisamos encarar um dado crítico: apenas 2,4% das publicações no Brasil são feitas em parceria com empresas. Além disso, a universidade opera, majoritariamente, nos níveis de TRL (Technology Readiness Level) 1 a 4 (conceitos básicos e validação em laboratório). A indústria, por sua vez, só "fala o idioma" a partir do TRL 7 (demonstração em ambiente operacional). O hiato entre o laboratório e o chão de fábrica é o nosso "Vale da Morte".


Diante desse cenário, torna-se imperativo aproximar cada vez mais indústria e academia. Para isso, é fundamental o alinhamento de expectativas entre as instituições e uma abertura ao diálogo construtivo. Reconheço que, como parte desse processo, devo buscar ativamente melhorar minha relação com as empresas, apresentando de forma clara as limitações e potencialidades da instituição em que trabalho.

Extensão como Ferramenta de Engenharia


A "curricularização da extensão" (os 10% da matriz), propostos pela resolução Número 7 do Ministério da Educação, é frequentemente vista como um desafio logístico. Além disso, as disciplinas extensionistas podem influenciar na dinâmica dos alunos ao longo do semestre, visto que o contato com as organizações além dos muros da universidade é algo que exige planejamento, disciplina e tempo.


De toda maneira, projetos já existentes na instituição como o Shark FEI e o Vô Chico tem a capacidade de alinhar o desenvolvimento técnico e social dos alunos através do desenvolvimento de soluções para problemas reais que a sociedade tem. Esses projetos não são apenas eventos de marketing, mas sim laboratórios nos quais as diversas habilidades dos alunos são potencializadas e incentivadas.


Quando nossos alunos saem dos muros para aplicar métodos em organizações externas, eles enfrentam variáveis que não existem em simulações: resistência cultural, limitações orçamentárias e a imprevisibilidade do fator humano. A extensão é, portanto, o teste de estresse do nosso ensino.


O Desafio da Tripla Hélice no Chão de Fábrica


A fala do Prof. Massambani sobre a integração Academia-Empresa-Governo toca em um ponto sensível da nossa rotina: por que, apesar de termos ciência de qualidade, o impacto socioeconômico ainda é tímido? Na minha visão, o problema reside na comunicação e latência. Enquanto a indústria opera em ciclos de atendimento a demandas e ROI (Retorno sobre Investimento) imediatos; A academia opera em ciclos de formação e maturação de pensamento.


Para que a Tripla Hélice (Academia-Empresa-Governo) funcione no Centro Universitário FEI, precisamos de novos monitores e feedback. Isso inclui a valorização de patentes e registros de software via INPI, mas vai além: exige uma mudança na nossa própria gestão do tempo docente, permitindo uma imersão mais profunda no setor produtivo sem o sacrifício da qualidade pedagógica.


Conclusão


A transformação da universidade em um agente econômico e social não é apenas um desejo institucional, mas uma necessidade de sobrevivência. Ao olharmos para o ciclo 2026-2030, fica claro que o nosso sucesso como educadores não será medido apenas pela quantidade de conteúdo transmitido, mas pela nossa capacidade de construir pontes sólidas sobre o "Vale da Morte".


Seja através da curricularização da extensão ou do fortalecimento da Tripla Hélice, o desafio está lançado: transformar o rigor acadêmico em impacto real no chão de fábrica e na sociedade. Afinal, a inovação só acontece quando o conhecimento deixa de ser estático e passa a ser, verdadeiramente, transformador.


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2025 feito por Rafael Alves com Wix

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